A luta contra o antissemitismo no Reino Unido está passando por uma mudança sísmica, deixando muitos na esquerda judaica se sentindo cada vez mais isolados. Enquanto figuras políticas de direita tomam a iniciativa de condenar o ódio antijudaico e defender Israel, judeus liberais e progressistas enfrentam um realinhamento político doloroso. Essa dinâmica ficou claramente ilustrada em um recente comício no centro de Londres, onde a Rabina Charley Baginsky, co-líder do Judaísmo Progressista, foi vaiada pela multidão — um contraste gritante com a recepção calorosa dada a Richard Tice, do Reform UK, e à líder conservadora Kemi Badenoch.
Por décadas, os judeus britânicos encontraram um lar natural na esquerda, enraizado em valores compartilhados de justiça social e responsabilidade comunitária. No entanto, a era de Jeremy Corbyn dentro do Partido Trabalhista danificou gravemente essa confiança, uma ferida que se aprofundou desde os ataques de 7 de outubro de 2023 em Israel. Muitos eleitores judeus agora se sentem abandonados pelo Partido Trabalhista devido ao ritmo das ações contra o racismo antijudaico e o extremismo islâmico, empurrando-os para partidos como o Reform UK, que eles percebem como agindo de forma mais decisiva.
A Adesão da Direita e o Acerto de Contas da Esquerda
A ascensão da direita nesta questão não é acidental. Raphi Bloom, do Conselho Representativo Judaico, observa que o Reform UK trouxe "aliados genuínos" dos Conservadores — incluindo Suella Braverman e Robert Jenrick — num momento em que muitos se sentem traídos. Embora o Reform tenha tido seus próprios problemas com racismo antijudaico, Bloom argumenta que ele "os tratou rapidamente", uma velocidade pela qual os eleitores estão cada vez mais julgando os partidos. Isso criou uma migração política onde a segurança e a ação decisiva são priorizadas em detrimento dos lares ideológicos tradicionais.
No entanto, a esquerda judaica não é monolítica. Muitos ainda acreditam que o antissemitismo só pode ser efetivamente confrontado através de amplas alianças com outras comunidades minoritárias e movimentos antirracistas. A Rabina Baginsky insiste que o antissemitismo deve ser colocado no contexto mais amplo de combate a todas as formas de ódio, dizendo: "até que sejamos uma sociedade que combata o antissemitismo, a islamofobia, o racismo, a misoginia e diga 'este não é o tipo de Reino Unido que queremos', então não estaremos vivendo num Reino Unido que seja seguro para nenhum de nós." Essa abordagem interseccional é cada vez mais difícil de manter quando partes desses mesmos espaços antirracistas são vistas com suspeita por minimizarem a hostilidade contra os judeus.
Tendências de Voto e Fraturas na Comunidade
A pesquisa mais recente sobre as preferências de voto dos judeus britânicos revela um quadro complexo. Em 2025, o apoio aos Verdes foi, na verdade, maior do que o apoio ao Reform UK. No entanto, entre os líderes comunitários, há uma crença clara de que a direita está se beneficiando da confiança cada vez menor na esquerda. A sensação de ser vaiado para fora do palco em seus próprios comícios, como aconteceu com os Rabinos Baginsky e Levy no ano passado, do lado de fora da Downing Street, deixou cicatrizes profundas. Até mesmo o líder dos Liberais Democratas, Ed Davey, foi vaiado antes de um mestre de cerimônias intervir, destacando que a ira é direcionada amplamente ao establishment político percebido como falho.
Essa fratura política criou um dilema doloroso para a esquerda judaica. Por um lado, eles temem que alinhar-se com a direita signifique sacrificar objetivos mais amplos de justiça social. Por outro, sentem que suas preocupações específicas de segurança estão sendo descartadas por aliados tradicionais. Como observou um participante do comício, a recepção calorosa às figuras de direita reflete um sentimento crescente de que "a resposta é erguer muros" em vez de construir coalizões mais amplas.
O Que o Futuro Reserva?
O caminho a seguir para a esquerda judaica é repleto de desafios. A Rabina Baginsky reconhece que sua mensagem de unidade é "uma mensagem muito difícil de transmitir quando, para algumas pessoas, a resposta é erguer muros". A comunidade deve navegar por um cenário onde conveniência política e clareza moral frequentemente entram em conflito. Alguns estão escolhendo priorizar a segurança em detrimento da ideologia, enquanto outros reforçam a crença de que somente através da solidariedade com outros grupos marginalizados a verdadeira segurança pode ser alcançada.
Por enquanto, a esquerda judaica se encontra numa posição precária: muito à esquerda para a nova coalizão da direita, e muito judaica para algumas partes da esquerda. Os próximos anos testarão se eles podem reconstruir a confiança ou se o realinhamento político os empurrará ainda mais para as margens. O que está claro é que a luta contra o antissemitismo não pode mais ser considerada uma causa garantida da esquerda — ela se tornou um campo de batalha político central onde as alianças estão mudando rapidamente.
Perguntas Frequentes
Por que alguns eleitores judeus estão migrando para a direita?
Muitos eleitores judeus se sentem abandonados pelo Partido Trabalhista, especialmente após a era de Jeremy Corbyn e a resposta lenta percebida ao antissemitismo após os ataques de 7 de outubro. Eles veem partidos de direita como o Reform UK agindo de forma mais rápida e decisiva contra o racismo antijudaico, mesmo que esses partidos tenham suas próprias histórias controversas.
A esquerda judaica está completamente isolada?
Não, mas está sob pressão significativa. Muitos judeus progressistas ainda acreditam na construção de coalizões antirracistas amplas. No entanto, eles enfrentam um ceticismo crescente de partes da esquerda que, segundo eles, minimizam ou toleram a hostilidade contra os judeus, ao mesmo tempo em que são vaiados em seus próprios eventos comunitários por parecerem muito centristas ou inclinados à esquerda.
Como isso afeta a luta mais ampla contra o antissemitismo?
A mudança corre o risco de politizar a luta contra o antissemitismo, tornando-a uma questão partidária em vez de universal. A Rabina Baginsky e outros argumentam que a verdadeira segurança exige o combate a todas as formas de ódio juntas, mas o clima atual está empurrando muitos para uma postura mais insular e defensiva. Isso pode enfraquecer as amplas alianças necessárias para combater o racismo em todas as suas formas.
